Dia das Mulheres? Todos os dias.

A assinalar o dia da Mulher, reproduzimos este texto da autoria de Rita Nabeiro, CEO da Adega Mayor e administradora do Grupo Nabeiro, que nos lembra que lutar todos os dias pela igualdade é um sinal de inteligência.

No Dia da Mulher não ofereçam prendas ou deem os parabéns às mulheres pela data. E se oferecerem ou receberem flores, por cada uma delas, recordem as lutas que muitas travaram para verem direitos básicos reconhecidos em vários países do mundo.

Foi, por isso, que o dia 8 de março de 1975 foi instituído como o dia Internacional da Mulher pela ONU, de forma a “celebrar as conquistas das mulheres provenientes dos mais diversos contextos étnicos, culturais, socioeconómicos e políticos”.

Em vez de deturparmos o propósito deste dia, criando oportunidades de negócio, devemos recordar que este dia existe para homenagear as muitas mulheres que perderam a vida a lutar pela igualdade. Devemos recordar as batalhas travadas para obter o direito de voto. Devemos recordar as muitas mulheres que perderam e continuam a perder a vida, vítimas de violência física ou sexual. Devemos recordar que ainda há muitos países onde lhes é negado o acesso à educação pelo simples facto de terem nascido mulheres. Devemos recordar que muitas não podem escolher o que vestir, com quem sair, onde ir e que são vistas como propriedade do seu marido e famílias. Devemos recordar as inúmeras mulheres que são vítimas de tráfico humano e exploração sexual e de outros tipos.

Se nas últimas décadas, em muitos países, houve uma clara progressão em relação à igualdade, em muitos outros as desigualdades persistem ou inclusivamente retrocederam, pelo que a ONU definiu a igualdade de género como um dos objetivos para a agenda do Desenvolvimento sustentável 2030.

Este objetivo será difícil de alcançar na sua plenitude em menos de uma década. No caso português não precisamos de recuar muitos anos para perceber que o direito de voto é uma realidade recente.

Carolina Beatriz Ângelo foi a primeira mulher a votar em Portugal, por ocasião das eleições no dia 28 de maio de 1911. O facto de ser viúva e de sustentar a sua filha permitiu-lhe encontrar um vazio na legislação e invocar em tribunal o direito de ser considerada “chefe de família”. Conseguiu esse feito, mas a lei do código eleitoral acabaria por ser alterada no ano seguinte, para evitar situações semelhantes.

Foi preciso esperar até 1968 para que fosse removida qualquer discriminação em função do género no acesso ao voto e pelo ano 1976 para que o sufrágio se tornasse universal em Portugal.

Em Portugal e no resto do mundo foram sendo conquistados muitos direitos, mas os números ainda revelam uma realidade distante do ideal, com uma menor representatividade por parte das mulheres no topo de várias hierarquias e com um fosso salarial por questões de género. É por isso que este é um tema que continua a merecer a atenção de todos, começando nas nossas casas e nos nossos locais de trabalho. Passa por reconhecer enviesamentos e preconceitos, passa por criar legislação mais inclusiva que permita aos homens mais tempo de licença de parentalidade, passa por nas nossas organizações haver real equidade e transparência, passa por dar oportunidades a quem as merece independentemente do género.’

Por fim, este não é um tema de uns contra os outros ou de uns melhores do que outros. É um tema de todos. Porque a diversidade gera riqueza na sociedade e nas organizações, gera ideias, inovação e um maior sentido de inclusão e pertença. Mais do que um dever e do que uma questão de equidade, é também um sinal de inteligência.


Artigo da autoria de Rita Nabeiro, originalmente publicado pela Link to Leaders, 8 março 2022.